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Para o bem e para o mal, África transformou-se novamente num palco onde as superpotências competem. A rapidez com que a China vem reivindicando a sua parte nos recursos africanos - incluindo o petróleo, a madeira e os 54 votos de que o continente dispõe na ONU- vem assustando os rivais de Pequim, tanto na América como na Europa. Após um impulso inicial nos anos 70, motivados pela sua ideologia, os chineses voltaram agora com mais força do que nunca. Existe muito de positivo neste envolvimento chinês. O capitalismo nominalmente comunista para arrancar o seu país da pobreza é visto como modelo para as economias africanas mergulhadas em dificuldades. O comércio bilateral entre África e China vem crescendo rapidamente e deverá superar os US$ 40 biliões neste ano, sendo que no início da década movimentava menos de US$ 1 bilião. Para os governos africanos, a China representa uma nova fonte de investimentos e de bens de consumo de preço baixo, além de servir como contrapeso à influência dos EUA e da Europa. Em Dezembro passado, foi aberto em Nairobi o primeiro Instituto Confúcio de África, um centro educacional e cultural comparável às representações do British Council ou da Alliance Française. O que é ainda melhor para os governos africanos é que Pequim afirma não vincular condições políticas, ambientais ou económicas ao dinheiro que entrega. Mas a China terá que se preparar para encarar manifestações de hostilidade vindas do interior de alguns de seus Estados africanos clientes. Afinal, ela está a comportar-se como potência colonial à “moda antiga”, empregando mão-de-obra barata - em alguns casos, importada da China - para extrair recursos naturais para seu próprio uso e vendendo produtos manufacturados cuja própria competitividade enfraquece os produtores locais. Os nigerianos e sul-africanos, em especial, estão revoltados com a perda de centenas de milhares de empregos na indústria têxtil. Mas uma queixa mais grave que tem sido formulada contra a China é que, ao ignorar as tentativas ocidentais (e também africanas) de vincular a assistência e os investimentos à protecção dos Direitos Humanos, às salvaguardas ambientais e à promoção da transparência no sector petrolífero, ela está a permitir abusos e corrupção em todo o continente. O peso do petróleo Mesmo a suposta não-ingerência da China nos assuntos internos de Estados clientes é falsa, coisa que a Zâmbia descobriu este mês. O embaixador chinês no país, indignado com o facto de um candidato presidencial cortejar Taiwan e criticar as condições humanas numa mina controlada por chineses, ameaçou suspender os investimentos chineses na indústria mineira, na construção civil e no turismo. Os chineses ainda são bem-vistos em boa parte da África. Mas o apoio que Pequim dá a alguns dos regimes do continente sugere que sua política para a África, apesar de ser divulgada como sendo neutra e voltada para os interesses das empresas, está a tornar-se tão ávida e imoral quanto eram as de algumas outras potências estrangeiras na era pós-colonial. Se não injectar alguma dose de responsabilidade nas suas relações com África, a China não será saudada por ter criado "um novo paradigma global", como espera o ditador Robert Mugabe, do Zimbabwe. Em vez disso, será lembrada como aliada de estados ditatoriais, saqueadora de florestas e aliada de assassinos e tiranos. Fontes: Financial Times, Folha de São Paulo e www.macua.org
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