Hungria: “Os Balões da Traição”
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Por Rainer Daehnhardt

ImageFaz agora 50 anos que se deu o histórico levantamento da Hungria. O regime comunista instalou-se em Budapeste no fim da Segunda Guerra Mundial e os húngaros foram submetidos à vassalagem do bloco soviético. Mais a ocidente, esquartejou-se o Reich de Bismarck em diferentes zonas de ocupação. Entretanto, a Guerra Fria já tinha dado provas (através da Guerra da Coreia) de que americanos e russos preferiam confrontar-se no território dos outros.
Em 1956, semanas antes do levantamento húngaro, o autor destas linhas assistiu a uma pequena acção militar secundária que lhe deu para pensar.

Os escuteiros de muitas nações europeias resolveram largar pequenos balões com um postal atado. Tratava-se de uma acção juvenil de boa vizinhança onde até se podiam ganhar prémios. Centenas de milhar de escuteiros largaram balões no mesmo dia. Os que chegassem mais longe ganhavam, desde que fossem encontrados e enviados de volta pelo correio. Lembro-me dos cartões. Explicavam o concurso em três ou quatro línguas; preenchia-se o remetente e esperava-se que o balão voasse o mais longe possível e descesse algures onde alguém bem intencionado o preenchesse e devolvesse por via postal. Lembro-me que os balões eram ligeiramente maiores do que os das brincadeiras dos miúdos e eram amarelos.

O meu grupo de escuteiros (CVJM-Falkenhorst) dirigiu-se de Frankfurt am Main para uma montanha da zona fronteiriça entre a RFA e a RDA (dois estados ilegalmente criados no pós-guerra  pelas forças de ocupação). Como outro grupo de escuteiros tinha escolhido o mesmo monte para largar os seus balões, foi nossa pretensão chegar primeiro ao local para largar os nossos. Assim, iniciámos a marcha ainda era noite quando uma coluna militar norte-americana com cerca de duas dezenas de camiões fechados passou por nós. Tanto nessa altura como ainda hoje vive-se na RFA num faz-de-conta, pretendendo não se ver a presença dos aliados vencedores (que ainda lá se encontram mas não se fala disso). Quando chegamos ao topo, reencontrámos os militares americanos. Seus camiões estavam carregados de garrafas de gás e balões. Estavam a despachar-se porque pretendiam largar os seus balões ainda antes dos nossos e não pareceram ter gostado nada de serem surpreendidos por nós. Acabaram por reunir o seu material e foram-se embora para certamente largarem mais balões a partir de outro local.

Estranhei. Nunca tinha visto militares a largarem balões, ainda por cima aos milhares. Lembro-me de na altura ter perguntado quem é que nos tinha oferecido os nossos, porém não obtive resposta. É que os balões dos soldados americanos não só eram também amarelos como precisamente do mesmo modelo. Apercebi-me então que o nosso concurso de envio de balões de Boa Vontade era apenas o disfarce para o envio dos balões de propaganda dos norte-americanos. Entretanto, Um dos balões "militares" ficou preso numa árvore. Na pressa, eles nem se deram conta disso, até porque o dia começava a clarear. Contudo, a nossa curiosidade em saber o que diziam os cartões dos balões deles foi tanta, que acabamos por subir à árvore e arrancar o postal. Dizia em alemão, checo e húngaro mais ou menos o seguinte: "O Mundo Livre olha com muita atenção ao que está a acontecer nos países ocupados pelo comunismo, mas só poderá intervir se as populações escravizadas convidarem ou pedirem a sua ajuda".

Nunca li qualquer referência a esta largada de balões militares em parte alguma. Um dos meus colegas escuteiros (Heinz Meier, morador na Feldbergstr.13, em Frankfurt/Main) ganhou o 2º prémio. Seu cartão foi-lhe devolvido proveniente da Roménia.

Mas os balões americanos tiveram o seu peso. Os húngaros ainda sonhavam que algo melhor pudesse vir dos aliados ocidentais. Levantaram-se e foram esmagados por 17 divisões de tanques e infantaria russa. Milhares morreram em combate. Centenas foram executados. Muitos pereceram torturados nas prisões. Entre estas prisões, destacava-se uma de Budapeste onde se aplicaram formas de morte tão cruéis que só cérebros totalmente distorcidos poderiam inventar.

Como eu falava mais do que uma língua e sabia escrever à máquina, fui um dos voluntários escolhidos para receber e ajudar estudantes húngaros então refugiados na RFA. Ao escrever os seus dados pessoais assisti a cenas de descontrolo emocional. Os estudantes tinham conseguido fugir da prisão de Budapeste e no meio dos combates, alcançar e atravessar a Cortina de Ferro. Nós só poderíamos oferecer uma bicicleta, uma pequena ajuda financeira e um lar onde pudessem ficar gratuitamente. No entanto, o que nessa altura mais peso teve para muitos deles, ao ponto de lhes correrem as lágrimas pela face, foi o facto de alguém se sentar ao seu lado, perguntar-lhes seu nome e origem e ter tempo para ouvir a sua história. Os casos que mais me chocaram foram os relatos dos sobreviventes de tal prisão de Budapeste. O sadismo na tortura chegou ao ponto de (guardas femininos, não dignos sequer deste nome) introduzirem finos tubos de vidro no pénis dos torturados partindo os tubos e deixando-os a morrer devagar aos gritos alucinantes de dor.

No meio de tantos testemunhos que me foram prestados, muitos deles passados por mim à máquina e certamente ainda existentes algures, consta o de um estudante que esteve a defender uma ponte até à última, perdendo diversos dos seus camaradas, sempre na esperança vã de que os americanos ainda chegassem para os libertar. Ele mencionou-me que "Os americanos até nos mandaram balões com cartões com mensagens que incitavam ao levantamento geral, prometendo que vinham".

Por acaso, eu fui um dos que assistiram ao lançamento desses “Balões da Traição de Budapeste”.


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