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Por João José Brandão Ferreira
Por exemplo, entre o mito e a realidade; entre a inveja e o desprendimento; entre o “Velho do Restelo” e o Infante D. Henrique; entre a traição e o patriotismo; entre Miguel de Vasconcelos e Nuno Álvares; entre nacionalismo e internacionalismo; entre maritimidade e continentalidade; entre cumprir as leis no estrangeiro e violá-las em casa; enfim (a lista podia continuar), entre o Bem e o Mal.
Creio que tudo isto não se passa só em Portugal e faz parte da natureza humana. Mas como nós somos da Lusitânia concentremo-nos no nosso alter-ego que, pelos vistos, bem precisamos. Vem todo este arrazoado a propósito do que se tem passado no programa apresentado por Maria Elisa e onde a isenção parece andar arredada. Num programa que apesar das bases pouco seguras em que assenta poderia servir para alguma pedagogia cívica e cultural vemos, amiúde, sobrepor a estas, as paixões ideológicas, a luta partidária e a desonestidade intelectual. O expoente do que afirmo tem a ver com a polarização entre as figuras de Salazar e Cunhal. Álvaro Cunhal foi sempre um homem, um político coerente e também parece que não há dúvidas de que morreu assim. É capaz de ficar como epitáfio. Salazar aparece neste âmbito, como uma espécie de dualidade de Cunhal, no século XX português. E dizemos “uma espécie”, pois não o podemos considerar na plenitude do termo, já que não temos termos de apreciação completos. Isto é, enquanto de Salazar podemos apreciar o valor da sua obra e a força das suas ideias porque ele teve oportunidade de concretizar, de Cunhal podemos apenas imaginar o que ele poderia ter feito (e tivemos uma “pequena” amostra nos idos de 74/75), e só podemos avaliar as suas teses pela luz que atravessa as paredes de vidro (fosco) do Partido. Sem embargo, não há dúvidas que são realidades opostas, com uma visão diametral das coisas e dos homens e com uma aspiração do que queriam para Portugal e para os portugueses nos antípodas um do outro. Concedemos-lhes aos dois, digamos que em termos académicos, uma recta intenção, quanto ao futuro que ambicionaram para Portugal, mas uma coisa é inquestionável: não podiam nem podem estar os dois certos ao mesmo tempo. Ora sendo Cunhal um “herói” de Abril e Salazar excomungado dos livros escolares e do comentário político é corolário natural que quando se fala de um e de outro as coisas estarem desbalanceadas à partida. Passando-se as coisas assim, é lógico poder concluir-se que quem estava certo é Cunhal e o outro errado (não vale aqui considerar a tese dos espertos que defende que estavam ambos errados...). Os dois homens têm coisas em comum: subiram a pulso; tinham superior inteligência; foram íntegros no sentido em que nunca se aproveitaram da riqueza material em proveito próprio; foram duros, tenazes e persistentes e, que diabo, não se pode dizer que o grau de coerência de Salazar fosse inferior ao de Cunhal. Agora as semelhanças acabam aqui. Para começar as origens, enquanto Salazar era de família humilde, Cunhal nasceu no seio de família burguesa; Salazar era um homem de Fé religiosa; Cunhal tinha fé numa ideologia anti religiosa; Salazar tirou o país da lama e reconstruiu o estado; Cunhal quis subverter o estado e a nação; Salazar era um patriota sem mácula e um nacionalista ferrenho; Cunhal queria pôr Portugal como satélite da União Soviética; Salazar defendeu todos os pedaços da terra portuguesa sem tergevisar e sem olhar a sacrifícios, Cunhal quis alienar todo o ultramar português às teses do marxismo-leninismo soviético; Salazar construiu de tudo um pouco, Cunhal o seu partido e organizações terroristas (ou seriam de libertação?), subvertiam, provocavam greves, punham bombas e, mais tarde tentaram até, aleivosamente, minar o esforço de guerra nacional; Salazar intentou implementar uma doutrina e um sistema político que diminuísse pela via da discussão e da negociação as eventuais fracturas entre as forças do capital e do trabalho; e promovesse a harmonia social através de legislação que salvaguardasse os interesses variados das diferentes corporações e onde portanto tanto a greve como o “lockout” fizessem sentido; Cunhal fomentou a luta de classes, o ódio entre patrões e operários, a apropriação de todos os meios de produção na posse do Estado, etc; Salazar quis potenciar as características culturais e etnológicas dos portugueses, Cunhal queria mudar tudo isto, pretendia realizar o “homem novo” imbuído e defensor de ideias alheias, utópicas e até antinaturais; Salazar acumulou ouro e divisas durante décadas que ajudaram a manter o escudo forte e respeitado; Cunhal e seus seguidores delapidaram, em poucos meses, parte dessa riqueza e hipotecaram outra e degradaram as finanças e a moeda de um modo que ainda hoje se repercute; Salazar nunca mandou matar ninguém e era humano na repressão que pontualmente teve que fazer; Cunhal intrigou dentro do partido, promoveu purgas (e tudo isto ainda na clandestinidade – onde os laços de coesão deveriam ser mais fortes) e vários militantes comunistas tiveram morte violenta. No período de menos de um ano (74/75), em que houve na sociedade uma influência indiscutível das forças marxistas, prenderam-se e expatriaram-se mais pessoas do que nos 40 anos do “Estado Novo”. E choveram ameaças de morte e instigação ao ódio; Salazar foi um português de Lei que defendeu contra ventos e marés, intransigentemente, os interesses de Portugal contra amigos, adversários, inimigos e, às vezes até, de si mesmo; Cunhal defendeu toda a sua vida, objectivamente, os interesses de uma potência estrangeira – a URSS –, e continuou a defendê-los mesmo depois desta ter desaparecido. Coerência, aliás, “oblige”! Por isso deve colocar-se esta pergunta ao país actual, que todos ajudámos a criar: Quem é que foi afinal coerente nos erros e quem foi coerente nos acertos, Salazar ou Cunhal? Aparentemente os responsáveis pelo programa não pretendiam sequer que a questão se colocasse: Salazar não seria sequer votável. Quem terá medo da sua sombra? Quem anda de consciência pesada? Lido: 8405
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