Empatámos com a Polónia!
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Por João J. Brandão Ferreira
        Tcorpilac(ref.)

Porquê?

Por uma razão simples de contornos complexos: o facto dos nossos defeitos, que fazem parte da matriz idiossincrática portuguesa, suplantarem amiúde as nossas virtudes.

Expliquemo-nos.

Havendo características comuns à natureza humana que são observáveis em qualquer ponto do planeta, existem também peculiaridades e traços de carácter que individualizam os habitantes de um determinado país.

É por isso que, um dia, estando num aeroporto dos EUA, facilmente identifiquei um compatriota que tinha ido esperar mas que nunca tinha visto.

A maneira de ser e estar de cada povo tem, então, a ver com o grupo étnico, o clima, a geografia, os hábitos desenvolvidos, a cultura que criaram e as realizações e vicissitudes por que passaram em conjunto ao longo dos tempos.

Ora os portugueses, que constituem o Estado Nação mais antigo e mais coeso que se conhece; com fronteiras estáveis (salvo o percalço do termo de Olivença, ilegalmente em mãos castelhanas desde 1801), com excepção do Japão, que é uma ilha; com a riqueza e complexidade histórica que carreiam, desenvolveram em alto grau o seu “estereótipo”.

Para o Bem e para o Mal.

É do equilíbrio destas coisas que temos que fazer o devir colectivo. A diferença está na liderança.

O que se passa no futebol ilustra bem o que queremos reflectir. Em primeiro lugar as trapalhadas nos negócios, os fumos de corrupção, que começam não poucas vezes com “chicoespertismos”, e os videirinhos que enxameiam o ambiente, retiram ao futebol qualquer aura de credibilidade. As ligações, por demais badaladas, ao mundo da politica e não só, fazem o resto.

Negociatas várias, menores escrúpulos relativamente a obrigações fiscais e salários pornográficos se comparados com o comum dos cidadãos, ilustram o panorama geral.

O cidadão comum, aparentemente, gosta.

Ele não gosta, porém, de jogar futebol – o número de praticantes é escasso –, gosta é de o discutir: são quase todos, até, treinadores potenciais de bancada e café!...

É uma actividade lúdica que ajuda a passar a vida e lhe trás algum sal. Às vezes paixões assolapadas.

O pior são os resultados. E aqui é que a porca torce o rabo.

Para se ter bons resultados é preciso trabalhar no duro, estudar, treinar, obter conhecimentos técnicos, tácticos, etc., e muita preparação física. E é preciso fazer isto com método e persistência.

Ora os portugueses não são nada bons a fazer isto a não ser quando estão muito bem motivados para um objectivo que os ultrapasse. Depois é necessário transformar onze seres individuais (mais o resto à volta), numa equipa, ou seja fazer compreender que a soma do conjunto é superior à justaposição das partes que o compõem.

Estes são os elementos “materiais”.

A seguir é imperioso trabalhar os atributos do espírito. Estes são os mais importantes, mas são intangíveis por não se poderem medir de per si.

É necessário desenvolver o espírito de corpo, a tenacidade, o carácter, a vontade de vencer, a capacidade de sofrimento, e persistir nisto.

Finalmente, embalados por todo este conjunto de coisas e pelas realizações em comum, gerar uma mística que potencie e sobreleve as qualidades da selecção.

A mística, porém, tem que ser orientada para a humildade e não para a arrogância. Sem embargo de se dever jogar sempre para ganhar e não para apostar em equações aritméticas falíveis, que têm o condão de nos obrigar a andar sempre com a corda ao pescoço e a só se decidir as coisas à última hora. Umas vezes a favor, outras nem por isso. E meter, por uma vez, na cabeça que o jogo só acaba com o apito final do árbitro de modo a não se baixar os braços antes de tempo, o que nos leva constantemente a dolorosas surpresas, como o segundo golo da Polónia tão bem atesta.

E, já agora, é mais importante que o público apoie a equipa quando esta está a perder do que quando está em vantagem.

O jogo com a Sérvia decidirá a sorte das coisas, num ou noutro sentido.

Se isto se passasse assim só no futebol não viria grande mal à casa portuguesa. O problema é que tudo é extensivo a todos os sectores da nossa vida colectiva.

Haja Deus.


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