Desmoronamento do império dos EUA
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(Um russo analisa a próxima queda do império dos EUA)

Superar o "Conflito do Colapso"

A URSS estava mais bem preparada para a entrada em colapso do que estão hoje os EUA

Por Dmitry Orlov

Boa noite, senhoras e senhores. Não sou especialista, nem erudito, nem activista. Serei antes uma testemunha ocular. Observei a entrada em colapso da União Soviética e tentei expressar as minhas observações numa mensagem concisa. Deixar-vos-ei a tarefa de decidir da urgência dessa mensagem.

Esta noite, a minha palestra é sobre a falta de preparação para a entrada em colapso, aqui nos Estados Unidos. Vou compará-la à situação que existia na União Soviética, antes do seu desmoronamento. Como retórica, vou utilizar  “Superar o Conflito do Colapso” – para acompanhar o Conflito Nuclear, o Conflito Espacial e vários outros conflitos das super-potências que estiveram na moda durante a Guerra Fria.

(2). O desmoronamento económico é geralmente um tema triste. Mas eu sou optimista e bem disposto. Acredito que, com alguma preparação, tais acontecimentos podem ser superados sem problemas. Como já devem ter calculado, gosto imenso de observar colapsos económicos. Talvez quando for velho, todos os colapsos parecer-me-ão iguais. Mas ainda não cheguei a esse ponto. 

A possibilidade de um colapso económico

Este próximo mantém-me intrigado. Pelo que vi e li, parece que há uma boa hipótese da economia dos EUA entrar em colapso, num futuro próximo. Também parece que não vamos estar preparados para tal. Da maneira como as coisas estão, a economia dos EUA está prestes a desaparecer. Assim, estou ansioso por aproveitar as minhas observações do desmoronamento soviético.

(3). Imagino que algumas pessoas vão reagir bastante mal ao facto de eu comparar o seu país com a URSS. Garanto-vos que o povo soviético teria reagido da mesma maneira, se os EUA se tivessem desmoronado primeiro.

Sentimentos à parte, duas super potências do Século XX desejavam, mais ou menos, as mesmas coisas. Nomeadamente, o progresso tecnológico, o crescimento económico, o trabalho a tempo inteiro e a supremacia mundial. Mas discordaram no que respeita os métodos. Porém, obtiveram os mesmos resultados. Ambos tiveram êxitos, intimidaram todo o planeta e infundiram medo um ao outro. Ambos acabaram por ir à falência.

(4). Os EUA e a URSS ombrearam em muitas coisas, mas apenas mencionarei quatro.

O programa espacial soviético tripulado vai de vento em popa, sob a direcção da Rússia, e realizam viagens charter, pela primeira vez. Os americanos têm viajado no Soyuz, enquanto as suas naves ficam em terra.

A corrida ao armamento não produziu um vencedor claro, o que é uma notícia excelente, visto a Garantia da Destruição Mútua continuar de pé. A Rússia continua a ter mais ogivas nucleares do que os EUA e tem uma tecnologia supersónica de mísseis de cruzeiro que pode penetrar qualquer escudo anti míssil, especialmente os que não existem.

Antigamente, graças ao seu inovador programa ‘GULAG’, os soviéticos iam à frente na Corrida à Cadeia. Mas começaram a ficar para trás, estando a Corrida a ser ganha pelos americanos com o maior número de pessoas na cadeia, de sempre.

A Corrida do Odiado Império do Mal também está a ser ganha pelos americanos. Isso é fácil, já que não têm ninguém contra quem competir.

Os EUA estão a enfrentar os mesmos problemas que afundaram a União Soviética

(5). Continuando com a nossa lista de semelhanças entre as super- potências, muitos dos problemas que afundaram a União Soviética também estão agora a pôr os EUA em perigo. Por exemplo, um enorme exército bem equipado, muito dispendioso, sem uma missão clara e atolado a combater rebeldes muçulmanos. Por exemplo, uma escassez de energia ligada a picos de altas na produção do petróleo. Por exemplo, uma balança comercial persistentemente desfavorável e que resulta numa dívida externa descontrolada. Tudo isto acrescido de uma imagem própria errada, uma ideologia inflexível e um sistema político insensível.

(6). É espantoso observar um colapso económico, e muito interessante se for descrito com precisão e em pormenor. Uma descrição geral tende a tornar-se insuficiente, mas eu vou tentar. Uma disposição económica pode continuar a funcionar durante algum tempo depois de se ter tornado insustentável, através da inércia. Mas a dada altura, uma avalanche de promessas quebradas e de suposições invalidadas acaba com ela. Uma dessas disposições insustentáveis assenta na ideia que é possível pedir cada vez mais dinheiro empestado ao estrangeiro e importar cada vez mais energia, enquanto o preço dessas importações continua a subir de ano para ano. Dinheiro livre para comprar energia equivale a energia livre, e energia livre não existe na Natureza. Portanto, esta deverá ser uma situação passageira. Quando a corrente de energia recuperar o equilíbrio, grande parte da economia dos EUA será forçada a parar.

(7). Descrevi, em pormenor, o que aconteceu na Rússia, num dos meus artigos. Podem encontrá-lo em www.SurvivingPeakOil.com

Não vejo por que aquilo que acontece nos EUA tenha de ser totalmente diferente, pelo menos em termos gerais. Os aspectos específicos serão diferentes, mas já vamos falar deles.

Contem com faltas de electricidade, racionamento da luz e falhas de energia generalizadas

Temos de contar com falta de gasolina, de alimentos, de medicamentos e de inúmeros bens de consumo, com o racionamento da electricidade, do gás e da água, com paralisações nos transportes públicos e outras infra-estruturas, com uma hiperinflação, falências e desemprego em massa, além de um grande desespero, muita confusão, violência e desordem. Não devemos contar com grandes planos de salvação, com programas tecnológicos inovadores, nem com milagres de coerência social.

(8). Quando enfrentadas com uma situação destas, algumas pessoas depressa percebem o que têm de fazer para sobreviver, e começam a agir, geralmente sem licença de ninguém. Surge uma espécie de economia, totalmente informal e frequentemente semi-criminosa. Esta trata de liquidar e reciclar o que resta da velha economia. Baseia-se no acesso directo a recursos e à ameaça do uso da força, em vez de se basear na propriedade ou na autoridade legal. As pessoas que têm um problema em fazer as coisas desta maneira, depressa se vêem postas de parte. Estas são as generalidades. Vamos agora ver os pontos específicos.

(9). Um dos elementos importantes para estarmos preparados para o colapso é garantir que não precisamos de uma economia a funcionar para mantermos um tecto sobre as nossas cabeças. Na União Soviética todos os imóveis pertenciam ao Estado que os disponibilizava directamente às pessoas. Dado que todos os edifícios eram construídos pelo Estado, só eram construídos em sítios onde houvesse transportes públicos. Após a entrada em colapso, quase todas as pessoas conseguiram manter as suas casas.

Nos Estados Unidos, poucas pessoas têm as suas casas livres de encargos, portanto, precisam de uma receita para pagar os impostos sobre os imobiliários. Pessoas sem rendimentos arriscam ficar sem casa. Quando a economia entrar em colapso, poucas pessoas continuarão a ter um rendimento certo, e o número dos sem-abrigo vai disparar. Mediante a dependência do grande número de pessoas que vivem nos subúrbios de um automóvel, vai haver uma migração de sem-abrigo para o centro das cidades.

A população dos Estados Unidos depende quase totalmente do automóvel

(10). Na União Soviética, quase que só havia transportes públicos, mas em grande quantidade. Também existiam alguns automóveis particulares, mas eram tão poucos que o racionamento da gasolina ou a falta dela era praticamente inconsequente.

Toda esta infra-estrutura pública destinava-se a ser quase eternamente sustentável, e continuou a funcionar, enquanto o resto da economia se desmoronava.

A população dos Estados Unidos depende quase totalmente do automóvel e conta com mercados que controlam a importação, a refinação e a distribuição do petróleo. Também conta com o contínuo investimento público na construção e reparação das estradas. Os automóveis precisam de uma série de peças sobressalentes importadas, e não estão feitos para durarem muitos anos. Quando estes sistemas intricadamente interligados deixarem de funcionar, grande parte da população encontrar-se-á sem alternativas.

(11). O colapso económico acaba por afectar tanto o emprego no sector público como no privado. Dado que as burocracias governamentais tendem a ser lentos a agir, desmoronam-se mais devagar. E como as empresas estatais tendem a ser ineficientes e açambarcam material, há muito para os empregados levarem para casa e usarem como moeda de troca. A maioria dos soviéticos trabalhava no sector público o que deu tempo às pessoas para pensarem no futuro.

As empresas privadas tendem a ser mais eficientes em muitas áreas. Por exemplo, em despedirem os empregados, fechar as portas e liquidarem os seus bens. Como, nos Estados Unidos, a maioria dos empregos se encontra no sector privado, devemos esperar que a transição para o desemprego total seja abrupta para a maioria das pessoas.

Falta de estruturas familiares coesivas

(12). Quando as pessoas enfrentam dificuldades, normalmente, recorrem às suas famílias. Na União Soviética, havia uma falta de casas crónica, o que frequentemente resultou em três gerações viverem sob o mesmo tecto. Isto não era algo que os tornava felizes mas, pelo menos, estavam habituados uns aos outros. A expectativa geral era que aguentariam tudo juntos, acontecesse o que acontecesse.

Nos Estados Unidos, as famílias tendem a dispersar-se por vários Estados. Chegam a ter dificuldade em suportarem-se mutuamente, quando se reúnem no Dia de Acção de Graças, ou no Natal, quando tudo corre bem. Serão capazes de ter dificuldade em darem-se bem nos tempos difíceis. Já existe solidão a mais neste país, duvido que um colapso económico resolva a situação.

(13). Os americanos precisam de dinheiro afastarem o mal. A seguir a um colapso económico, há normalmente uma hiperinflação que acaba com as poupanças.

O desemprego dispara, o que acaba com os rendimentos. Consequentemente, a população está sem dinheiro.

Na União Soviética, poucas coisas se podiam obter por dinheiro. Ele era tratado mais como uma moeda de troca do que um bem, e era dividido com os amigos.

Muitas coisas, incluindo a habitação e os transportes, eram de graça ou quase de graça.

Uma sociedade de consumo

(14). Os produtos de consumo soviéticos sempre foram objecto de escárnio – frigoríficos que aqueciam a casa e a comida, etc. Quem arranjasse um, podia considerar-se feliz, e dependia do comprador pô-lo a funcionar quando chegasse a casa. Uma vez que conseguisse pô-lo a funcionar, tornava-se uma valiosa herança que passava de geração em geração, era robusto e funcionava quase eternamente.

Nos Estados Unidos, é frequente ouvirmos dizer que ‘não vale a pena mandar arranjar’. Isto é suficiente para irritar enormemente os russos. Soube de um russo idoso que ficou furioso quando numa loja de ferragens, em Boston, não lhe quiseram vender umas molas. “As pessoas deitam fora colchões óptimos, como vou arranjá-los?”

O colapso económico tende a acabar com a produção local e as importações. Assim, é muito importante que o desgaste dos nossos bens seja muito lento e que os consigamos consertar, caso quebrem. Geralmente, os objectos fabricados pelos soviéticos eram resistentes. Já não se pode dizer o mesmo dos objectos chineses que estão à venda por aqui.

(15) O sector agrícola soviético era notoriamente eficiente.

Muitas pessoas cultivavam a sua comida, até em tempos de prosperidade. Havia armazéns de alimentos em todas as cidades, abastecidas segundo um esquema governamental. Havia poucos restaurantes. A maioria das famílias cozinhava e comia em casa. Ir às compras era cansativo e representava carregar bastante peso. Às vezes, era como ir à caça - tentar encontrar uma peça de carne escondida atrás de um balcão. Assim, as pessoas estavam bem preparadas para o que veio a seguir.

Nos Estados Unidos, a maioria das pessoas compra os alimentos num supermercado que é abastecido de longe por camiões-frigorífico diesel. Muitos nem se dão ao trabalho de ir às compras, limitam-se a comer refeições rápidas. Quando as pessoas cozinham, é raro cozinharem a partir do zero. Tudo isto é pouco saudável e afecta a obesidade do país. Algo que é visível a léguas.

Um grande número de pessoas, que apenas circula de e para os seus carros, parece estar pouco preparado para o que virá a seguir. Se, de repente, tivessem de começar a viver como os russos, não se aguentavam.

A vulnerabilidade e um sistema de Saúde movido pelo lucro

(16). O governo soviético canalizou recursos para programas de imunização, controlo de doenças infecciosas e cuidados básicos. Geriu directamente um sistema de clínicas estatais, de hospitais e de sanatórios.

Pessoas com doenças terminais ou problemas crónicos tinham, frequentemente, motivos de queixa, e tiveram de pagar cuidados privados. Se tinham dinheiro para isso.

Nos EUA, a medicina é para dar lucro. As pessoas parecem achar isso normal. Existem poucas iniciativas às quais os americanos negariam um lucro. O problema é que, quando a economia desaparece, também desaparece o lucro, mais os serviços que ajudou a motivar.

 (17). O sistema educativo soviético era geralmente excelente. Produziu uma população esmagadoramente letrada e muitos grandes especialistas. A educação era gratuita a todos os níveis, mas a educação mais avançada, às vezes, pagava um estipêndio e frequentemente providenciava casa e comida. O sistema de educação aguentou-se muito bem, após o colapso da economia.

O problema era que não havia emprego, no fim do curso, para os que se tinham formado. Muitos perderam-se.

O sistema mais avançado de educação, nos Estados Unidos, é bom em muitos campos. Nomeadamente, na pesquisa governamental e industrial, desporto de equipa, treino vocacional... A educação primária e secundária não conseguem atingir em 12 anos o que as escolas soviéticas atingiam em 8. A escala maciça e o custo de manutenção destas instituições serão capazes de ser demasiado elevados para a situação do pós-colapso. O analfabetismo já é um problema nos EUA, podemos esperar que piore.

Os Estados Unidos dependentes da importação de energia

(18). A União Soviética não precisou de importar energia. O sistema de produção e de distribuição vacilou, mas não entrou em colapso. O controlo dos preços manteve a luz acesa, enquanto reinava a hiperinflação.

O termo “falha de mercado” parece ajustar-se à situação energética nos EUA. Os mercados livres desenvolvem características perniciosas quando há escassez de mercadorias. Durante a II Guerra Mundial, o governo dos EUA percebeu isto e resolveu racionar muitas coisas, desde a gasolina até aos sobressalentes de bicicletas. Mas isso foi há muito tempo.

Desde aí, a inviolabilidade dos mercados livres tornou-se um elemento de fé.

(19). A conclusão que eu tiro é que a União Soviética estava muito mais bem preparada para o colapso económico do que os Estados Unidos estão.

Não falei de duas importantes assimetrias das super-potências por nada terem a ver com um estado de preparação para a entrada em colapso. Uns países têm mais sorte do que outros. Mas vou mencioná-las para não deixar nada de fora.

Sociedades etnicamente diversas tendem a explodir

Em termos de composição racial e de etnia, os Estados Unidos mais se assemelham à Jugoslávia do que à União Soviética. Assim, não devemos esperar que tudo seja tão pacífico como foi na Rússia, após o colapso. Sociedades etnicamente diversas são frágeis e tendem a explodir.

Em termos de religião, a União Soviética estava relativamente livre de cultos apocalípticos de juízo final. Poucas pessoas ansiavam por uma bola de fogo atómico do tamanho do planeta a anunciar a segunda vinda do seu salvador. Isso foi uma grande vantagem.

(20). A área onde não consigo discernir nenhum conflito de colapso, é a da política nacional. As ideologias podem ser diferentes, mas a aderência cega a elas é muito similar.

É muito mais divertido ver dois partidos capitalistas a atacarem-se do que ter apenas um partido comunista no qual votar. As coisas pelas quais costumam discutir em público são geralmente pequenas questões simbólicas de politica social. O partido comunista só ofereceu uma pílula amarga. Os dois partidos capitalistas oferecem uma escolha entre dois placebos. A inovação mais recente é a eleição photo-finish onde cada partido compra 50% dos votos e o resultado é tirado do barulho estatístico, qual coelho de uma cartola.

A maneira americana de lidar com o desacordo e os protestos é muito mais avançada: para quê meter os dissidentes na cadeia, quando se pode deixá-los gritar para o vento tudo o que lhes apetece?

A maneira americana de fazer a contabilidade é mais subtil e tem mais nuances do que a russa. Para quê fazer um segredo de estado de uma estatística, quando se pode distorcê-la de uma forma obscura? Aqui vai um exemplo simples: a inflação é “controlada” através da substituição do hambúrguer pelo bife, para minimizar os aumentos de pagamento da Segurança Social.

Há que dessintonizar os políticos

(21). Muitas pessoas gastam imensa energia a protestarem contra o seu governo irresponsável e indiferente. Parece uma tremenda perda de tempo, tendo em conta a ineficácia dos seus protestos. Será para eles um consolo poder ler sobre os seus esforços na imprensa estrangeira?

Acho que se sentiriam melhor se dessintonizassem os políticos da mesma maneira que os políticos os dessintonizam a eles. É tão fácil como desligar a televisão. Se experimentarem, verão, provavelmente, que nada nas suas vidas mudou. Nada mesmo. A não ser, talvez, que a sua disposição melhorou. Talvez reparem que têm mais tempo e energia para se dedicarem a coisas mais importantes.

(22). Vou delinear algumas maneiras, realísticas ou não, de como superar o Conflito do Colapso. A minha pequena lista de abordagens pode parecer algo simples, mas há que não esquecer que este é um problema muito difícil. Na realidade, é importante não esquecer que nem todos os problemas têm solução. Garanto-lhes que não vamos resolver o problema esta noite. Vou apenas tentar analisá-lo de vários ângulos.

(23). Muitas pessoas protestam contra a indiferença e a irresponsabilidade do governo. É frequente dizerem: “Do que precisamos é de...” e vem o nome de um projecto governamental de êxito do passado glorioso como, por exemplo, o Plano Marshall, o Projecto Manhattan, o Programa Apollo. Mas não existe nada nos livros de História sobre um governo preparar-se para o seu colapso. A “Perestroika” de Gorbachev é um exemplo de como um governo tentou evitar, ou atrasar, o desmoronamento. Provavelmente, ajudou a acelerá-lo.

Esquecer o passado

(24). Há umas coisas que eu gostaria que o governo resolvesse na preparação para a entrada em colapso. Estou muito preocupado com as inúmeras instalações radioactivas e tóxicas, com as reservas e os depósitos. É pouco provável que as gerações futuras consigam controlá-los, especialmente, se o aquecimento global os colocar debaixo de água. Há por aí quantidade suficiente dessa porcaria para nos matar a todos.

Também estou preocupado com os soldados ficarem abandonados no estrangeiro. Abandonar os seus soldados é uma das coisas mais vergonhosas que um país pode fazer. É preciso desmantelar as bases militares no estrangeiro e repatriar os soldados. Gostaria que o enorme número de presos nas cadeias fosse gradualmente reduzido, de uma forma ordeira e com antecedência, em vez de através de uma amnistia geral caótica. Para terminar, penso que esta farsa de dívidas que jamais serão pagas, já foi longe demais.

Esquecer o passado dará tempo à sociedade para se readaptar. Como vêem, não peço milagres. Mas, se algo de tudo isto for feito, considerá-lo-ei um milagre.

(25). Uma solução de sector privado não é algo impossível, apenas muito, muito pouco provável. Algumas empresas estatais soviéticas eram, basicamente, estados dentro do Estado. Controlavam todo um sistema económico, e podiam prosseguir mesmo sem a economia mais vasta. Continuaram com essa situação mesmo depois de serem privatizadas. Punham os consultores administrativos ocidentais fora de si com os seus inúmeros jardins-de-infância, lares de terceira idade, lavandarias e clínicas gratuitas. Estes não faziam parte das suas competências base. Eles precisavam de reduzir e simplificar as suas operações.

Os gurus administrativos ocidentais não repararam na coisa mais importante: a competência base destas empresas residia na sua capacidade de sobreviver ao colapso económico. Talvez os jovens génios do Google consigam concentrar-se nisto, mas duvido que os seus accionistas consigam.

“Os elefantes brancos”

(26). É importante compreender que a União Soviética conseguiu preparar-se para o colapso inadvertidamente, e não devido ao sucesso de um qualquer programa de desastre financeiro. O colapso económico tem tendência a transformar negativos económicos em positivos.

A última coisa que desejamos é uma economia próspera, crescente, perfeitamente funcional que entra de repente em colapso e deixa todos nós em apuros. Não é necessário adoptarmos os princípios de uma economia de domínio e planeamento centralizado para igualar o desempenho soviético sem brilho área. Nós temos os nossos métodos que resultam quase tão bem. Eu chamo-lhes “elefantes brancos”. São soluções para problemas que criam mais problemas do que resolvem.

Olhem à vossa volta, verão elefantes brancos a saltar por todo o lado, em todos os campos. Temos elefantes brancos militares como o Iraque, elefantes brancos financeiros como o mal fadado sistema de reformas, elefantes brancos médicos como o seguro de saúde privado, elefantes brancos legais como o sistema de propriedade intelectual.

O somatório do peso de todos estes elefantes brancos está a afundar-nos lenta mas seguramente. Se nos fizer afundar o suficiente, o colapso económico, quando ele chegar, será como cair de uma janela do rés-do-chão. Temos de ajudar a fazer avançar este processo ou, pelo menos, não devemos interferir nele. Se alguém lhes disser “quero fazer um elefantes branco que funcione a hidrogénio” encorajem-no! Não é tão bom como um elefante branco que queima dinheiro directamente, mas será um passo dado na direcção certa.

(27). Alguns tipos de comportamentos económicos não são prudentes a um nível pessoal e também são contraproducentes na superação do Conflito do Colapso. Qualquer actividade que possa resultar num crescimento económico contínuo e em prosperidade é contraproducente. Quanto mais alto saltamos, maior é a queda. É traumático passarmos de uma reforma elevada para nenhuma, devido a uma queda do mercado. Também é traumático passarmos de um vencimento alto para nenhum vencimento. Se, além de tudo, nos mantivemos incrivelmente ocupados e, de repente, não temos nada para fazer, encontrar-nos-emos numa situação muito má.

O colapso é a pior altura para se ter um esgotamento nervoso

O colapso económico é a pior altura para se ter um esgotamento nervoso, porém, é o que acontece muito frequentemente. As pessoas mais em risco, psicologicamente, são os homens de meia-idade com sucesso. Quando vêem a sua carreira terminar de repente, as suas poupanças desaparecer e os seus bens perder valor, eles perdem grande parte do seu sentido de valor pessoal. Tendem a virar-se para a bebida e a suicidarem-se em números desproporcionados. Como tendem a ser as pessoas mais experientes e capazes, isso representa uma grande perda para a sociedade.

Se a economia, e o seu lugar nela, é mesmo importante para si, ficará muito magoado quando ela desaparecer. Pode ensaiar uma atitude de indiferença estudada, mas terá de ser mais do que apenas um conceito. Tem de desenvolver o estilo de vida, os hábitos e a energia física para a apoiar. É preciso muita criatividade e esforço para criar uma existência satisfatória à margem da sociedade. Após o colapso, essa margem poderá ser um dos melhores sítios para se estar.

(28). Espero que não tenham ficado com a impressão que o colapso soviético não passou de um passeio porque, na realidade, foi bastante horrível de muitas formas.

O ponto que quero realçar é que quando esta economia entrar em colapso, vai ser muito pior. Outro ponto que quero realçar é a probabilidade do colapso aqui ser permanente. Os factores que permitiram a Rússia e as outras antigas repúblicas soviéticas a recuperar não estão presentes aqui.

Apesar de tudo isto, acredito que em cada era e circunstância, as pessoas podem por vezes encontrar não apenas um meio e um motivo para sobreviver, mas também a iluminação, o preenchimento e a liberdade. Se os pudermos encontrar mesmo depois do colapso da economia, por que não procurá-los já?

Muito obrigado.
______________________________________________________________

Esta palestra foi feita por Dmitry Orlov, um observador e analista que escreve para o Energy Bulletin, em 4 de Dezembro de 2006.
http://energybulletin.net/23259.html

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  Comentários (1)
1. Liberdade
Escrito por Ana Ferrreira website, em 31-10-2008 18:26
Agradeço à leitura atenta e comparação das duas potências, à mensagem optimista apesar de "dura". Sem dinheiro, os valores de solidariedade vão ser a solução para o egoísmo crescente e ganância dos homens.

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