Colom à margem do "ADN"
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por Dr. Fernando Cassiano Neves

Razão tinha Toscanelli ao escrever que a América já era conhecida dos portugueses antes da viagem de Colom.

Sendo amigo, cunhado e primo do Rei, por ser meio-irmão da Rainha D. Leonor e filho natural do Infante D. Fernando, Duque de Beja, tudo fez Colom a favor de Portugal, com grande prejuízo para a sua vida futura.

Na política de D. João II alguém tinha de se sacrificar e ninguém melhor que Salvador Gonçalves Zarco o poderia fazer.

Assim, uma das suas tarefas, com provável ajuda do cosmógrafo de bordo que era português, era convencer e provar que as Antilhas estavam situadas na Ásia, junto a Cipango (Japão).

Colom afirma então que a Ilha de Cuba (nome da sua terra natal no Alentejo), ficava no extremo Oriente da Ásia, tendo para este efeito mandado lavrar um documento firmado por todos os seus capitães que ficou célebre e dizia: "Estamos na Ásia...", isto sob pena de língua cortada e multa de 10.000 maravedis a quem contestasse.

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No regresso da sua viagem, Salvador Gonçalves Zarco aportou à Ilha de Santa Maria em 8 de Fevereiro de 1493 e em 4 de Março entrava na barra de Lisboa, escrevendo logo ao Rei, pedindo licença para fundear em frente à Cidade e a informar que não vinha da Guiné mas sim da Índia.

Visitou em Lisboa a Rainha sua irmã e voou até à Azambuja a falar com D. João II!

Entre Portugal e Espanha há muito se discutia sobre os direitos aos Descobrimentos, havendo sempre grande firmeza nas atitudes do Príncipe Perfeito em relação aos Reis Católicos

Com esta notícia mandou D. João II preparar uma esquadra sob o comando de D. Francisco de Almeida para "que fosse tomar as terras descobertas por Colom", como estando no limite marcado pelos tratados e que portanto se encontravam dentro da esfera de influência portuguesa.

A esquadra nunca chegou a largar, mas a notícia chegou a Espanha, como era desejo de D. João II.

Foi então que os monarcas espanhóis mandaram à Corte Portuguesa uma Embaixada que o Rei de Portugal ridicularizou, dizendo que era de bradar aos céus que um embaixador coxo e outro imbecil, viessem pedir esclarecimentos em relação ao nosso monopólio marítimo e à liberdade de comércio na Guiné que, como é sabido, estava interdita aos castelhanos pelo Tratado de Toledo, assinado em Alcáçovas a 12 de Março de 1480. Devido a este tratado, os barcos espanhóis eram caçados pelos barcos portugueses em toda a Costa da Guiné, sendo aprisionados ou afundados.

Recorreram então os Reis Católicos ao Sumo Pontífice Alexandre Vi, um Bórgia de origem espanhola, tendo D. João II feito o mesmo.

Determinou o Papa a região conferida a cada País, o que foi confirmado pelo Tratado de Tordesilhas em 7 de Junho de 1494, rectificado pelos Reis Católicos a 2 de Julho e por D. João II a 5 de Setembro, sem que antes não tenham sido alterados a nosso favor os limites marcados pelo Papa, para que pudéssemos chegar ao Brasil!

Colom recebeu indicações seguras sobre as Terras a Ocidente, pelo amigo Martim de Behaim, conhecido pelos portugueses como Martim da Boémia que tinha acompanhado Diogo Cão na sua viagem ao Congo em 1482 e que pelos valiosos conhecimentos adquiridos através de pilotos e cosmógrafos portugueses, construiu o célebre Globo que se encontra na cidade de Nuremberga. Também recebeu informação preciosa do seu cunhado Pedro Corrêa da Cunha, donatário da Ilha da Graciosa que tinha largos conhecimentos das viagens açorianas e ainda dos pilotos dos Açores António Leme e João Coelho, descobridor da Ilha Espaniola.

Assim, Colom não descobriu mas apenas tomou posse desta ilha que é actualmente o Haiti.

Por ter acesso a tanta informação e talvez por já lá ter estado, em companhia de pilotos portugueses, escreveu não necessitar de mapas para ir descobrir as "Ilhas", tendo no entanto levado um Roteiro Astronómico das Tábuas de Navegação, escrito em hebraico por Zacuto, oferta do Rei.

Sabia muito bem para onde ia. Tomou o rumo das Canárias que o levava directo às Antilhas e não o dos Açores, onde havia o perigo de ir dar ao noroeste americano, já visitado por Diogo Teive em 1452 e pelos irmãos Corte-Real.

Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colom e que herdou os seus papéis, escreve que este sempre viajou em companhia de portugueses e que tinha tanta certeza de encontrar Terra que "é como se já lá tivesse estado".

À primeira ilha a ser avistada que hoje pertence ao Arquipélago das Bahamas, deu Colom o nome de São Salvador (seu nome de baptismo).

Las Casas escreve na sua obra, "História das Índias" que, ao chegarem à Ilha Espaniola, os nativos deram a entender que poucos anos antes já ali tinham estado outros homens brancos e barbudos como eles.

Em carta a um almirante espanhol, dizem os Reis Católicos: "Na armada de Viscaya, que está em Cadiz, não sabemos o que moveu a Arbieta, capitão dela, a mandar perseguir navios que passam com Índios de Portugal Além, porque semelhante coisa não se deve fazer sem nosso mando, nós lhe escrevemos a este respeito e ordenamos que se os tomou, os restitua a quem o Rei D. João de Portugal mandar por eles".*

Índios de Portugal Além, antes de Vasco da Gama, eram sem dúvida aborígenes americanos.

Lobo d'Ávila e Saul Santos Ferreira no livro Cristobal Colón – Salvador Gonçalves Zarco, Infante de Portugal, dizem: "Foram da valiosa contribuição de Portugal, as descobertas da Índia do Oriente, por Vasco da Gama, e o descobrimento das Índias do Ocidente por Cristobal Colón, ambos discípulos dessa famosa escola de Sagres fundada pelo Infante D. Henrique".

Conforme diz Mascarenhas Barreto, "Os navegadores portugueses cumprindo a determinação real da política  de sigilo, tinham adoptado medidas de criptografia náutica e, assim, usavam do expediente de multiplicar por 2 a latitude de um lugar, o que confundia qualquer ladrão de roteiros ou diários de bordo".

Também a estimativa do valor da légua do grau...só usada pelos marinheiros portugueses, era a mesma que usava Colom.

Ora, como todos estes segredos estavam vedados a estrangeiros, temos de admitir que Colom, ao sabê-los, só poderia ter estudado na Escola de Sagres.

Curiosamente, pilotos espanhóis e italianos, vendo os seus cálculos, comentavam que Colom não sabia navegar, ficando espantados como conseguia fazê-lo.

Na Carta Geográfica de Juan de la Cosa, feita com informações dadas por Colom, verificamos haver grande quantidade de topónimos portugueses com correspondência a nomes nas Antilhas, sendo grande parte pertencente ao Ducado de Beja.

Sabendo do sucesso da Viagem de Vasco da Gama, preferiu Colom cair em desgraça do que aceitar qualquer novo empreendimento vindo de Castela que pudesse de qualquer modo prejudicar o comércio português na Ásia.

D. João II, com a sua política de sigilo, tinha pleno conhecimento das Terras a Ocidente mas o que lhe interessava era desviar a atenção dos espanhóis para aquelas bandas, para que ficasse livre o tão desejado Caminho da Índia.

Daí o "bluff" com a esquadra de D. Francisco de Almeida para ocupar as Antilhas. Como escreve Jaime Cortesão, "O Tratado de Tordesilhas é a obra prima culminante da política diplomática de D. João II sobre os descobrimentos e a soberania portuguesa nas terras descobertas ou a descobrir" e com este Tratado, D. João II "reserva para Portugal a verdadeira rota e posse das Índias" e uma grande parte do Brasil.

Só com o regresso de Vasco da Gama da Índia, em 1499, os Reis Católicos se apercebem do logro em que tinham caído, pois naquela época, só a Índia interessava.

Quando morreu D. João II, bem disse a Rainha de Espanha, Isabel, a Católica: "morreu o HOMEM".

*Informação do Arquivo do Dr. José Cassiano Neves


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  Comentários (1)
1. Vasco da Gama
Escrito por Vasco da Gama website, em 30-03-2010 00:23
Andei eu mais de uma hora a procurar esta informação até que finalmente encontrei! Aproveitei também para adicionar este blog aos favoritos.

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