Ainda há generais...em Espanha!
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Por João Brandão Ferreira
 
ImageDeveria ser estultícia afirmar que tudo o que se passa de relevante em Espanha nos deveria interessar. Mas não é.
De facto, os principais acontecimentos políticos, sociais, diplomáticos, económicos, financeiros e, sobretudo, de âmbito estratégico, são objecto de muito deficiente análise e estudo entre nós.
Vem isto a propósito das declarações do general Mena Aguada, proferidas no dia da Páscoa Militar, que não se limitaram a provocar vasta celeuma, levando mesmo o ministro da Defesa a puni-lo.

Uma pequena explicação do que é a “Páscoa Militar” impõe-se para o cabal entendimento do escrito. Trata-se de uma “festividade” com que a realeza espanhola quis homenagear as Forças Armadas por estas terem reconquistado a ilha de Menorca, perdida na sequência da guerra da Sucessão de Espanha.
Estando a família real em Madrid, o Rei designa um seu representante para cada um dos locais onde a comemoração tem lugar. O general Aguada representava assim, D. Juan Carlos, em Sevilha.
Que disse então aquele militar de tão extraordinário?  
Apenas isto: que havia no estatuto autonômico da Catalunha, entretanto aprovado, dois aspectos relacionados com a língua e a justiça, que colocam graves problemas às Forças Armadas (FA's); e um outro que a não ser salvaguardado põe em risco a unidade da Espanha. Sobre este último aspecto, por ser o mais grave, teceu ainda mais alguns considerandos, chamando a atenção para o que se pode tornar anticonstitucional e que essa mesma Constituição - jurada pelos militares -prevê no seu artigo 8º que as FA's têm como “missão garantir a soberania e independência de Espanha, defender a sua integridade e o ordenamento constitucional”.
E acrescentou que os juramentos para os militares espanhóis (como me parece que são para todos os outros), constituem uma questão de honra.
O general falou de uma forma elevada, não ofendeu ninguém, e expressou lealmente as preocupações da cadeia hierárquica e dos seus subordinados.
Que má consciência ou autoritarismo exacerbado pode levar um ministro a colocar um chefe militar em prisão domiciliária por semelhante acto de pundonor?.
Que confusões (ou perfídias), vão na cabeça de políticos que entendem que o general está a entrar em terrenos que não lhe dizem respeito? Que está a fazer Política?
Mas o que está consignado na Constituição espanhola, nomeadamente, no seu artigo 8º, não é eminentemente político? E é por ter esta relevância que o general se sentiu – e bem - na obrigação de se expressar. É que os militares, devendo obediência e respeito aos governos, ao Parlamento, ao Rei, também devem lealdade e respeito a si próprios e, acima de tudo, à Nação que servem e donde emanam. (1)
Então os políticos é que se põem em situação de ofender o cumprimento das leis. A coesão nacional e a unidade do Estado e o ónus é atirado para cima de quem diz as verdades e alerta para as possíveis consequências? Ou pretendia-se atingir a realeza?
Que querem os políticos? Generais eunucos? Cidadãos acríticos e amorfos de terceira categoria? Não deixa de ser caricato que numa sociedade avançada do século XXI, onde profissionais das mais diferentes origens digam diária e publicamente, as coisas mais incríveis, os militares que pertencem a uma instituição secular, patriótica, com provas dadas, em que a escolha, formação e exigências deontológicas não têm paralelo na sociedade, a não ser na Igreja, sejam menorizados e enxovalhados por políticos menores onde, em muitos casos avulta como relevante no “curriculum” as horas passadas a colar cartazes e as bajulações aos chefes de momento. E que um circunstancialismo eleitoral passageiro guindou a posição de mando.
O general fez o que devia. Os outros o que costumam.

(1) As questões levantadas relativamente à Justiça e à Língua, foram salvaguardadas, posteriormente, pelo MDN, dando assim razão ao general. Quanto à autonomia estão a levantar-se em cada vez mais sectores da sociedade, críticas ao estatuto. E veremos, no futuro, que desgraças esperam os nossos vizinhos.


Lido: 1850

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