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"Toda a Verdade passa por três fases.
Primeiro, é ridicularizada.
Segundo, é violentamente atacada.
Terceiro, é aceite como evidente"
Schopenhauer

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Desde 13/06/06

Passaram-se 500 anos sobre a morte de Colombo: Porque não comemorámos?
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Por João J. Brandão Ferreira
 
ImageO célebre navegador e Almirante do Mar Oceano conhecido por Cristovão Colombo faleceu em Valladolid, em 20 de Maio de 1506. Passaram-se 500 anos.
Em Portugal a data passou despercebida. É pena que assim tivesse acontecido não só por causa da importância que a historiografia oficial acede em conceder ao nosso País na vida deste misterioso personagem da História Universal como, sobretudo, pelo que existe pendente em polémica histórica, política, estratégia, relações internacionais, etc.
Como o assunto é controverso, os poderes públicos não lhe querem pegar e raros são as instituições ou os particulares, que se dispõem a abordá-lo.

A História de Portugal regista no seu seio um número considerável de mistérios ou de questões que até hoje não foram completamente esclarecidos.
 
Estão neste caso entre muitas:
-  A questão sobre o “milagre” de Ourique;
-  O que se passou nas primeiras cortes de Lamego;
-  As navegações para Ocidente a partir dos Açores;
-  O que aconteceu ao espólio de Infante D. Henriques;
-  O significado do Políptico de S. Vicente de Fora;
-  O que se passou em termos de navegações entre a viagem de Bartolomeu Dias e a preparação da Armada de Vasco da Gama;
-  O afastamento de Pedro Álvares Cabral de qualquer vida pública após a viagem em que descobriu oficialmente o Brasil;
-  A reforma das Ordens Militares ao tempo de D. João III;
-  O desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir;
-  O Processo dos Távoras;
-  A expulsão dos Jesuítas;
-  O porquê da construção do convento de Mafra;
-  A morte de D. João VI;
-  O assassinato do Rei D. Carlos I;
-  O desaparecimento das jóias da coroa portuguesa;
-  E, mais recentemente, a morte do general Humberto Delgado e o caso Angoche.
 
Com tantos e aliciantes desafios é espantoso verificar quão diminuta tem sido a curiosidade dos portugueses em geral, em aprofundar estas matérias, o que apenas encontra paralelo no desprezo a eles dedicado pelos poderes públicos e pela comunidade científica.
Ora a vida e os feitos desse notável personagem conhecido por Cristóvão Colombo, inserem-se sem sombra de dúvida, nos grandes mistérios da História de Portugal.
Por outro lado existe, de um modo geral, na comunidade científica e académica um grande conservadorismo face à “verdade oficial” e ao que se encontra estabelecido há muito, havendo em simultâneo grande resistência face a ideias veiculadas por indivíduos que não sejam licenciados na área sobre a qual investiguem ou escrevem. Uma atitude corporativa – digamos no pior sentido do termo –, do qual muitas vezes os militares são injustamente acusados e que tem muito mais expressão em áreas profissionais civis.
As investigações sobre a verdadeira história de Cristóvão Colombo insere-se, em pleno, neste âmbito.
É curioso notar que a maioria dos autores que se têm debruçado sobre este tema em Portugal desde os fins do século XIX, como sejam Patrocínio Ribeiro, Santos Ferreira de Serpa, Saúl Ferreira, Junior Pestana, Carlos Romeu Machado, Afonso Dornelas, Artur Lobo d’Ávila, Fidelino de Figueiredo, Gaspar da Naia, Jaime e Armando Cortesão e mais recentemente Mascarenhas Barreto ou Luciano da Silva, não sejam licenciados em História. E o mesmo se passa com alguns dos seus opositores tais como Luís de Albuquerque, Graça Moura, Pinheiro Marques, o Marquês de Abrantes e até o Comandante Fernando Pedrosa e Francisco Contente Rodrigues. É justo ainda referir alguns autores estrangeiros que se aproximam ou reconhecem a nacionalidade portuguesa de Colombo. Tais como a Prof. Janina Clawa; Thor Heyherdhal, Pier Lilliestrom, Francisco Pinto Cabral e Luísa de Toledo Medina Sidónia.
Caros leitores, o mundo nunca perdoou que um pequeno país como Portugal, tivesse, sem ajuda de ninguém, alcandorado a uma tão relevante grandeza histórica.
 
Os estrangeiros, de um modo geral, não nos valorizam e desmerecem-nos e não devemos esperar que nos defendam. Podemos lamentar a sua falta de honestidade intelectual mas entendemos as motivações subjacentes.
Agora que portugueses, para além de toda a justificação, se depreciem a eles próprios e não cuidem das suas glórias é que me parece de muito fraco siso.
Uma das razões que levaram ao fim do Estado Novo foi o esgotamento da acção psicológica interna.
Esta nossa III República nem sequer o tenta, isto é, pouco se faz para aumentar a coesão nacional, o conhecimento das coisas portuguesas, o orgulho em Portugal. Tudo é centrifugo e tudo se relativisa. Fala-se muito em salvaguardar a identidade nacional, mas nada se diz sobre a sua individualidade. Ora, eu não sei como se pode manter uma sem cuidar da outra. De facto continuamos a alienar partes substanciais da nossa soberania e a destruir ou minorar o que a podia defender, alegremente, sem lhe medir as consequências, como que tolhidos por uma estranha maldição. Do mesmo modo deixámos de sentir ameaças, queremos ser amigos de todos e pensamos que todos querem ser nossos amigos. É com este pano de fundo que devemos enquadrar o desprezo com que as autoridades , as instituições, os intelectuais e a comunidade científica tratam o tema Colombo e tudo o que lhe está associado. O povo, esse, está impossibilitado, pois é tratado a “pão e circo”. Não sabemos se isto se passa por comodismo, ignorância, cobardia ou outra razão qualquer. Cada leitor ajuizará. O que eu sei é que deixamos passar as oportunidades que nos poderiam ser úteis e ainda colaboramos naquilo que nos é prejudicial. Tenho que vos maçar com alguns exemplos.
 
1992, para não ir mais longe, foi o ano da Espanha, e a exposição de Sevilha o seu expoente, comemorando os 500 anos da chegada de Colombo ao novo mundo (isto apesar dos portugueses já o terem feito). A isto se seguiu um campeonato da Europa de Futebol e as Olimpíadas de Barcelona do mesmo ano. Se isto não é planeamento estratégico ao mais alto nível não sei o que será. Da exposição de Sevilha aproveitaram italianos, espanhóis e outros, mas não Portugal que teve uma participação algo envergonhada apesar da Comissão Nacional para os Descobrimentos ter sido quase um mini-ministério e não consta que lhe faltassem meios financeiros. De tudo o que se passou resta-nos a réplica de uma caravela (que ainda navega) e alguns livros e revistas. Mas deixámos de desfrutar de qualquer pioneirismo – já que foram os “povos da Meseta” que se fizeram ao mar –, e nem sequer se fala mais em Descobrimentos, mas sim em “encontro de culturas”! Presumo que os leitores já se tenham dado conta disto...
 
Além disso Portugal não esteve representado (por não mostrar interesse), na comissão que organizou, em 1992, a exposição sobre os Descobrimentos que teve lugar em Washington e presidida por Daniel Boornstin.
 
E como entender que se declinasse o convite feito a Portugal para estar presente em Santo Domingo no ciclo das comemorações do V centenário da descoberta da América, em que tinha sido destinado ao nosso país um pavilhão de honra?
 
Nós somos tão perdulários que entregamos aos australianos a vontade de provar a primazia dos portugueses na descoberta da Austrália! E de igual modo deixámos escapar na Expo 98 em Lisboa, notável realização a vários níveis, a oportunidade de afirmar a importância das nossas coisas. Apesar do tema serem os oceanos, na parte que tocava à sua historiografia a mesma foi tratada ao de leve quase em termos de banda desenhada para jovens.
 
E deixámos, quando não colaborámos sem qualquer sinal de consternação que os nossos vizinhos tudo fizessem para se apropriarem da referida exposição. Já tínhamos falhado a comemoração dos 500 anos da passagem do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias, em 1487, marco fundamental na nossa gesta; quase ninguém deu conta também,  dos 500 anos do tratado de Tordesilhas, em 1494 e sobre a chegada de Vasco da Gama à Índia, a coisa mais relevante de que me lembro foi o desdém com que o governo da União Indiana se esquivou a colaborar nos eventos e a conferência que um notável indiano que pressurosamente convidámos, efectuou em Lisboa e nos insultou.
 
Deixámos ainda passar quase em claro o 500º aniversário da morte de D. João II e quando alguém se deu conta de que não havia no país nenhuma estátua a tão preclaro rei, ergueram-lhe uma vacuidade escultórica no topo sul da Expo, que é um insulto à sua memória. 
Mais uma vez as nossas tricas de família impediram a comemoração dos 75 anos da viagem aérea de Sacadura Cabral e Gago Coutinho ao Brasil, em 1997, o mesmo acontecendo na nova tentativa, três anos depois aproveitando o V centenário da chegada de Cabral ao Brasil. Até estas correram sem lustre, nada se adiantando sobre a mais que certa exploração daquele país antes de 1500. E lá fomos ofendidos mais uma vez na pessoa do Presidente da República com as inconcebíveis manifestações que lhe fizeram em terras de Vera Cruz.
Este facto poderia ter sido minorado se nos tivéssemos lembrado de comemorar os 350 anos da expulsão dos holandeses do Brasil, mas tal não nos ocorreu.
E os 450 anos da chegada ao Japão tiveram muito mais relevo naquele país do que na Lusa terra.
 
Enfim em muito pouco acertamos, e a lista podia continuar.
Há pois, que não desperdiçar próximas oportunidades:
Os 350 anos da queda de Ceilão e da vitória de Montes Claros, em 2006; os 500 anos da tomada de Ormuz, em 2008; os 200 anos das invasões francesas, entre 2007 e 2010; os 500 anos da conquista de Goa, em 2010; idem para a conquista de Malaca, em 2011, os 90 anos da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em 2012; e em 2015 deveremos comemorar os 100 anos da batalha da Mongua onde se efectuou a última carga a cavalo do Exército português; os 500 anos da morte de Afonso de Albuquerque e os 600 anos da Tomada de Ceuta.
E o mais importante para o caso vertente seria ter comemorado condignamente o V centenário da morte de Colombo. Até para se tentar quebrar de vez uma espécie de acordo tácito, a nível internacional, em que os italianos ficam com a glória de serem a terra do seu nascimento; os espanhóis gloriosos ficam por Colombo ter descoberto o “Novo Mundo” ao seu serviço e os portugueses partilharem a glória de lhes terem ensinado a maior parte do que ele sabia. Nesta “trilogia” temos ficado sempre a perder. Obviamente...
Há pois que insistir no tema Colombo. E o ponto é este: Colombo pode até nem ser português ou sendo-o ou não, ter servido a coroa portuguesa. Mas havendo, nem que sejam apenas pequenos indícios de que isso pudesse ter sido realidade, então seria lógico que o assunto fosse mantido vivo e acarinhado o seu estudo. Ora o espantoso é que não só, a nível nacional, nada se faz neste sentido, como se ataca e se tenta inviabilizar qualquer iniciativa que não vá por esse caminho. Não deve haver povo mais masoquista no mundo, do que o português.
 
E tanto é mais de espantar quanto este tema serve muito os interesses portugueses. Senão vejamos:
A busca da verdade ainda não deixou de ser uma actividade nobre;
A investigação sobre Colombo português ajudaria a colocar os Descobrimentos portugueses e toda a actividade que lhe está associada, no epicentro da abertura da Europa ao mundo, no conhecimento da terra e na primeira globalização que se levou a cabo;
A curiosidade e o desenvolvimento do conhecimento de todos estes assuntos seriam aumentados tanto a nível nacional como internacional;
A Marinha e a Cultura portuguesas veriam acrescentada a sua honra;
Tudo o que vier a favor de Portugal aumentará a nossa projecção no mundo e o peso específico que possamos ter na União Europeia, na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e neste caso específico, nas relações Ibero-Americanas;
Serviria para pagarmos uma dívida de gratidão a Salvador Fernandes Zarco, (verdadeiro nome do grande navegador), um português de lei que se sacrificou pelo seu rei e pela sua Pátria; [1]
Finalmente e muito importante, ajudaria a levantar a auto-estima nacional que a maioria dos comentadores afirma – e nós constatamos – andar pelas ruas da amargura.
 
É certo que isto nos traria incompreensões, vitupérios e, quiçá alguns problemas internacionais nomeadamente por parte da Espanha – que estamos em crer, sempre soube a verdade, mas não quer que se saiba –, e sobretudo, da Itália e das comunidades italianas espalhadas pelo mundo, a começar nos EUA, para quem Colombo é o maior dos seus heróis. Paciência, teríamos que arrostar com elas. Faz parte do preço que pagamos por sermos uma nação livre há quase nove séculos. Quando deixarmos de querer pagar esse preço, os leitores concluirão...
 
O que se pode fazer então? Muito. Atentem: pagar bolsas de estudo ou prémios para quem se quiser dedicar ao assunto; organizar congressos nacionais e internacionais sobre o tema; avaliar intervir e eventualmente, contestar o que se publica e faz no mundo sobre a questão; iniciativas várias, individualmente ou em conjunto, por parte de instituições nacionais, relativamente a toda esta temática; tentar interessar personalidades estrangeiras de reconhecido mérito, sobre a problemática. E seria do mais elementar bom senso que tudo fosse apoiado pelos órgãos do Estado.
 
Vivemos tempos favoráveis para se relançar a polémica.
Na Internet existem já centenas de sites sobre Colombo; no Canadá organizou-se há pouco um congresso internacional sobre esta figura histórica e até a Câmara de Cuba se passou a interessar pelo diferendo desde que assumiu que Colombo era filho do Concelho.
 
Mas mais importante de tudo é que uma equipa de cientistas tem estado a efectuar testes de ADN para se determinar exactamente onde está sepultado Cristóvão Colombo: se em Sevilha se em Santo Domingo (e ainda para determinar se os outros corpos exumados em Sevilha são seus familiares). A República Dominicana começou por recusar os testes, depois autorizou e pouco antes destes se efectuarem,  voltou a impedi-los. É muito natural que haja no meio disto algumas pressões de bastidores.
 
A oportunidade para nós é única e creio que não suscitará argumentos contrários às entidades portuguesas que se batem pela tese genovesa, se se vier a propor a essa equipa de cientistas que se desloque a Portugal a fim de realizar testes semelhantes ao infante D. Fernando, tido como pai de Colombo, na tese portuguesa e que se encontra sepultado em Beja, bem como a outros familiares identificados de Colombo e cujos corpos possam ser analisados.
 
Poderá, eventualmente, o governo português entender que tal evento a ser proposto possa ter consequências políticas menos agradáveis. A isso teremos que responder que o acto é em si patriótico; que a procura da verdade é uma acção respeitável; que com isso não estamos a agravar ninguém e que defender o que é nosso é não só um Direito mas também um Dever.
 
Portugal para ser respeitado tem de se dar ao respeito. Já chega que os italianos nos “roubem” constantemente o Santo António e escusávamos de andar tão dobrados que deixamos chamar aos encontros semestrais entre os chefes de governo de Lisboa e Madrid “cimeiras ibéricas” em vez do correcto Luso-Espanholas.
 
Sem embargo há que persistir na esperança de que melhores dias virão. Esse é um dos objectivos deste escrito.

 [1] Ver Mascarenhas Barreto, "O Português Cristóvão Colombo, Agente Secreto do Rei D. João II", Lisboa,1988.


Lido: 5439

  Comentários (1)
1. Escrito por Graça Dias, em 21-11-2010 21:48
Excelente e muito oportuno artigo, numa época em que se pensa que o passado, não é também o presente!

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